

“Vários levantamentos mostram que as notícias fraudulentas repercutem mais que as verdadeiras.” – Eugenio Bucci (2018: p. 27)
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo… É o tempo da travessia, e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos.” Fernando Teixeira de Andrade
POE EDUARDO CARLI – É tempo de travessia, de pensamento, de reflexão, não é, Rangel? Quero começar agradecendo muito o seu convite. Nós não somos apenas colegas no IFG, mas acho que a gente também tem nutrido uma amizade e temos realizado muitas reflexões juntos nas ciências humanas, nessa interlocução entre geografia, filosofia e artes. Agradeço também a oportunidade de estar aqui no Centro Loyola de Goiânia neste 20 de maio para que a gente aborde um tema contemporâneo que eu acho que é muito pertinente e importante que nós façamos as reflexões aqui com coragem, porque estão vindo tempos bastante turbulentos no nosso porvir. Este é um ano eleitoral, então eu estou aqui para fazer algumas reflexões com vocês, a começar por esse tema que dá título à palestra: “Adeus à Verdade?” Uma interrogação: será que a nossa sociedade está querendo se despedir do conceito de verdade como um valor, que nós perseguimos, com a prática humana de buscá-la? Será que a nossa sociedade está abandonando a verdade como valor? Essa é uma primeira provocação que eu faço. E o subtítulo é “A Pós-Verdade na Era das Big Techs”.


Eu queria também começar por elogiar o trabalho que foi feito nas redes sociais para divulgação desse evento. Eu selecionei aqui alguns cartazes que foram divulgados e achei eles muito interessantes, com um impacto visual muito bacana. Começo por destacar esse cenário que nós temos hoje, onde está em destaque as redes sociais, os algoritmos e os likes. Nós temos essa figura de uma pessoa acorrentada ao botão de curtir do Facebook, e isso também me evocou algumas pesquisas que estão sendo feitas, inclusive no âmbito da neurociência e da psicologia social, sobre o sistema dopamínico do cérebro humano. Então tem algo acontecendo envolvendo essas megacorporações da comunicação e os cérebros dos bilhões de seres humanos que estão conectados a essas redes. Não é um mero exagero falar em bilhões porque, de fato, estima-se que só o Facebook tem 2 bilhões de contas ativas. Nós estamos falando de um fenômeno muito massivo que tem modificado os modos de subjetivação e de interconexão humana, sobretudo porque nós estamos cada vez mais viciados em receber pelos nossos dispositivos essas curtidas, comentários e reações. Cada vez que a gente recebe um coraçãozinho, cada vez que alguém interage conosco na caixa de comentários, nós temos um disparo de dopamina em nosso cérebro, e isso gera um efeito de vício às redes sociais e uma tentativa constante de conquistar mais reação e engajamento. A verdade deixou de importar? O que importa é causar sensação na rede? Que tipo de sujeito está emergindo com essa grande necessidade de estar hiperconectado e sempre recebendo dos outros, em tempo real, uma confirmação do seu valor? Você quer postar sua foto e quer que centenas de pessoas vejam, quer postar o seu texto e quer muitas reações que provem a ressonância daquilo que você expressou. Isso, de algum modo, é benigno porque é uma democratização da comunicação, todos têm voz, mas ao mesmo tempo vamos problematizar tudo isso que tem acontecido. Temos aqui uma outra ilustração muito interessante: “A verdade desaparece quando só ouvimos ecos de nós mesmos”.
Os algoritmos programados por essas grandes corporações estão prendendo as pessoas no que se chama de câmara de ecos ou bolhas, ou seja, você é exposto no seu feed a opiniões daqueles que já pensam semelhante. As máquinas aprendem a partir de um rastreamento das nossas atividades online, tudo que a gente acessa, curtidas e mecanismos de pesquisa geram um perfil, e o feed de cada um de nós é diferenciado. A tendência dessas redes é entregar ao usuário opiniões que se assemelham ao que ele já curtiu e comentou no passado, produzindo um trancamento do sujeito numa bolha, uma espécie de neo-sectarismo. Esta palestra está destinada a fazer algumas reflexões filosóficas e sociológicas sobre um grave cenário de desinformação e desordem informacional na sociedade contemporânea, abordando os desafios para o conhecimento da verdade na atualidade.
Vamos começar com algumas reflexões filosóficas a partir da obra de André Comte-Sponville, que tem um livro chamado “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”. Ele defende que o amor à verdade é uma virtude essencial para a prática da filosofia e dedica um capítulo a essa grande virtude, que tem vários sinônimos como boa-fé, sinceridade, honestidade, franqueza e autenticidade. Ele diz que o amor à verdade sente a verdade como um objeto de amor, respeito e vontade, e a ela se submete. Isso pode soar anacrônico no mundo contemporâneo, onde é difícil encontrar sujeitos que fazem da verdade um valor e um objeto de busca. Segundo esse filósofo, o amor à verdade significa não mentir nem ao outro e nem a si mesmo. Nós temos, inclusive, um verso do Renato Russo que diz que a pior mentira é aquela que nós contamos a nós mesmos. A boa-fé rege, ou pelo menos deveria reger, as nossas relações tanto com os outros quanto conosco mesmo. Isso tem uma longa tradição na filosofia, e eu vou citar La Rochefoucauld, que falou que a sinceridade é uma abertura de coração que nos mostra tais como somos, um amor à verdade, uma repugnância a se disfarçar, um desejo de reparar seus defeitos e até de diminuí-los pelo mérito de confessá-los. É muito interessante pensar o quanto isso caiu em desuso, o quanto hoje em dia esse desejo de ser sincero decaiu e tomou o seu lugar o ímpeto de causar sensação produzindo um conteúdo viral, de produzir um grande escarcel nas redes com um meme que se espalha para milhões de pessoas. O desejo dos sujeitos está muito capturado por essa vontade de impacto muito mais do que por esse amor à verdade e à sinceridade que toda uma tradição filosófica celebra.
Saltando para o mundo contemporâneo, eu começo o debate sobre pós-verdade citando um fato de sociolinguística ocorrido em 2016, quando a Universidade de Oxford elegeu a palavra do ano e escolheu o neologismo “pós-verdade” (post-truth). A definição desse termo é a seguinte: pós-verdade se refere a circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes na conformação da opinião pública do que a emoção e a crença pessoal. Isso significa um impacto na determinação do destino coletivo, via eleições e plebiscitos, onde o fenômeno da pós-verdade produz efeitos eleitorais de vasto impacto, fazendo um apelo à emoção e às crenças arraigadas do público mais do que a fatos averiguados. Esse é o cerne do nosso problema. Compartilho algumas pesquisas que eu fiz. Um dos livros que mais causou impacto no Brasil é “Os Engenheiros do Caos”, que mostra como as fake news, teorias da conspiração e algoritmos estão sendo usados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. Estatísticas são bastante assustadoras: um estudo do MIT demonstrou que uma falsa informação tem 70% a mais de probabilidade de ser compartilhada na internet, é geralmente mais original que uma notícia verdadeira, e a verdade consome seis vezes mais tempo que uma fake news para atingir 1.500 pessoas. A mentira na internet se dissemina mais fácil e viraliza de maneira descontrolada. Mudando o velho provérbio, na condição da cibercultura, a mentira tem pernas de papaleiguas e a verdade corre atrás em passo de tartaruga. Este autor chama os nossos celulares de “gaiolas de bolso”, um instrumento que nos torna rastreáveis e mobilizáveis a todo momento. É interessante pensar a rapidez da transformação tecnológica e que hoje a internet móvel está disponível a bilhões de seres humanos no nosso bolso. O primeiro celular foi lançado em 1994, em 2012 já eram um bilhão de usuários, e em 2021 o número de celulares já era estimado em 5 bilhões, um número espantoso que justifica a gente se dedicar a esse tema.
A live também fala das Big Techs, e eu queria falar rapidamente sobre o contexto geopolítico dominado por essas grandes corporações de tecnologia e pela Big Data. Esse autor que eu estou trazendo, o Morozov, escreve que nós estamos diante de um tsunami de demagogia digital. Ele se debruça sobre o Brasil e fala que as eleições brasileiras de 2018 mostraram o alto custo a ser cobrado de sociedades dependentes de plataformas digitais. O modelo de negócios das Big Tech funciona de tal maneira que deixa de ser relevante se as mensagens são verdadeiras ou falsas; tudo o que importa é se viralizam e geram cliques e curtidas, pois é pela análise de nossas curtidas e cliques que essas empresas geram seus enormes lucros. Sob a ótica das plataformas digitais, as fake news são apenas as notícias mais lucrativas. A infraestrutura da comunicação política mudou dramaticamente, e as leis do passado não são mais adequadas. Caso não encontremos modo de controlar essa infraestrutura, as democracias se afogarão em um tsunami de demagogia digital. O ódio, infelizmente, vende bem mais do que a solidariedade. Nós estamos diante de grandes empresas neocoloniais que tratam os dados como uma mercadoria extremamente lucrativa. As empresas GAFAM (Google, Apple, Facebook/Meta, Amazon e Microsoft) têm um valor de mercado de 16 trilhões e 800 bilhões de dólares, um número quase inimaginável, sendo as firmas mais lucrativas da história do capitalismo, superando até a indústria automobilística e petrolífera. Mas como é possível que essas empresas ganhem tanto dinheiro se o serviço é gratuito? A explicação é o colonialismo de dados: os nossos dados estão sendo vendidos no mercado da publicidade, e é essa a principal fonte desse poderio e riqueza.
Matthew D’Ancona escreve um livro chamado “Pós-Verdade: A Nova Guerra contra os Fatos em Tempos de Fake News” e usa exemplos como as eleições de Trump e Bolsonaro e o Brexit como fatos inegáveis de que a gente entrou na pós-verdade. Ele também analisa Platão e Maquiavel, que defenderam que um chefe de estado teria o direito de usar a mentira como ferramenta. No mundo contemporâneo, o grande emblema da pós-verdade é Donald Trump. O site de checagem PolitiFact analisou suas declarações e concluiu que 69% eram predominantemente falsas ou mentirosas. Em seu primeiro mandato, Trump foi pego em flagrante de 20 mil mentiras. Ele se tornou uma figura que governa pelas redes sociais, uma espécie de “twittercracia”, e comete um extremo desdém pela verdade como valor. Tivemos um episódio recente muito grave em que os EUA e Israel iniciaram uma guerra contra o Irã, e Trump usou sua rede social para prometer que “toda uma civilização será destruída”, uma ameaça de armas de destruição em massa contra a civilização milenar persa, para causar efeitos políticos. É muito grave que tenhamos figuras que façam esse tipo de uso da rede social.
Trouxe rapidamente dois autores cruciais. George Orwell, que escreveu “1984”, um dos maiores best-sellers do século XXI, retrata a sociedade da vigilância total do Big Brother e o protagonista Winston Smith que trabalha no Ministério da Verdade falsificando o passado para servir ao partido no poder. Uma frase de Orwell que inspira figuras como Assange e Snowden é: “Em uma época de enganação universal, falar a verdade é um ato revolucionário”. Falando sobre as bolhas e o filtro invisível, temos o autor L. Pariser. É uma ilusão acreditar que as plataformas são as mesmas para todos os usuários. Se eu fizer uma pesquisa no Google e você fizer a mesma, os resultados serão diferentes de acordo com os dados registrados no passado. O Google personaliza para todos; se eu pesquisar “células-tronco” ou “provas de mudanças climáticas”, os resultados serão opostos para um cientista e um ativista, ou para um executivo de uma empresa petrolífera. A maioria das pessoas acredita que os mecanismos de busca são imparciais, mas o monitor do computador é uma espécie de espelho unidirecional, refletindo seus próprios interesses enquanto os algoritmos observam no que você clica. Nós estamos sendo rastreados, e imensos data centers guardam nossos dados para que as inteligências artificiais criem personalizações dos conteúdos. O recurso de autocompletar do Google te envia um resultado de acordo com o seu passado, podendo sugerir que “aquecimento global é um mito” ou “um gravíssimo problema”. Se os algoritmos vão ser os curadores do mundo, precisamos nos certificar de que eles não sejam determinados apenas pela relevância, mas que também nos mostrem coisas desconfortáveis, desafiadoras e importantes. Como fazer para que os usuários não sejam trancados numa bolha de pensamento único, ainda mais num contexto de capitalismo neoliberal que se opõe ao controle social e à regulação estatal?
Eu quero cutucá-los com mais dois temas. Sou leitor do filósofo italiano Gianni Vattimo, e o título dessa live é uma homenagem a ele, que escreveu “Adeus à Verdade”. Vattimo, um filósofo cristão e grande pesquisador de Nietzsche, envolveu-se em controvérsias na Itália, especialmente por seu casamento com um ítalo-brasileiro. Quero fazer uma reflexão sobre saúde pública no século XXI. Em seu livro, Vattimo critica uma postura do Papa João Paulo II em uma visita a Uganda em 1989, em meio à pandemia do vírus HIV. O Papa condenou o uso de preservativos, dizendo que a castidade é a única maneira de pôr fim à AIDS e que os pais devem refutar o “sexo seguro”, insistindo na abstinência e fidelidade. Vattimo usa uma palavra muito forte, dizendo que essa proibição gerou “efeitos homicidas”. Ele faz uma crítica de teor nietzschiano das verdades absolutas, das verdades incontestáveis que devem ser aplicadas a todos, considerando-as provenientes do campo da metafísica, que não podem ser comprovadas cientificamente. Nesse caso, ele critica a crença de que a única maneira aceitável de exercício da sexualidade humana é o casal heterossexual cisgênero, sacramentado, com fins reprodutivos, o que ele considera uma postura que condena o uso de preservativos em meio a uma gravíssima crise de saúde pública, apelando para uma verdade metafísica absoluta que muitos contestam.
Quando as fake news matam, como uma capa da revista Veja apontou, temos o exemplo da página “Cura Verde”, que teve 206 mil compartilhamentos com a mentira de que tomar 3 litros de suco de cenoura por dia elimina o câncer em estágio 4 sem quimioterapia. Eu costumo utilizar a expressão “genocídio por desinformação” para o cenário que a gente viveu no Brasil durante a pandemia de covid-19, algo que talvez não tenha precedentes na história mundial. Estima-se que, dos mais de 700 mil brasileiros que faleceram, cerca de 400 mil poderiam estar vivos se não fosse uma estratégia institucional de propagação do vírus realizada pelo governo de Jair Bolsonaro. Isso se baseia em um estudo da ONG Conectas, da Universidade de São Paulo, reportado por Eliane Brum no El País, e comprovado pela CPI do Senado. Listei apenas alguns fatos: ataque ao uso de máscaras, práticas antivacina, propaganda de um remédio ineficaz (cloroquina), visões deturpadas sobre imunidade de rebanho, incentivo a aglomerações, falas públicas minimizando a gravidade, e atos públicos como a demissão do Ministro Mandetta para a instalação do General Pazuello. Tudo isso ocorreu por causa do chamado “bolsozap”, da disseminação de fake news e do impulsionamento pago de anúncios, produzindo conjunturas muito graves. Não seria absurdo propor que 400 mil pessoas poderiam estar vivas se tivéssemos um outro regime informacional. Eu quero terminar minha fala destacando a importância da checagem de fatos, com empresas como Aos Fatos, Lupa e Agência Pública, que fazem um trabalho excelente para detectar erros e mentiras. Mas a sociedade não valoriza tanto quanto merecia. Existem muitos caminhos para lidar com esse contexto: alfabetização midiática, checagem de fatos, movimentos cidadãos pela democratização dos aparatos de mídia. Eu quero muito que a gente possa dialogar, ouvir outras vozes, e agradeço a oportunidade e a escuta de vocês, esperando ter trazido um alimento farto para reflexão e debate. Agradeço ao Centro Loyola por essa chance de debater um tema tão crucial.
TAMBÉM DISPONÍVEL EM SUBSTACK
Publicado em: 18/07/26
De autoria: casadevidro247
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia